quinta-feira, 28 de maio de 2009

Texto: Os fatores do desenvolvimento mental

INHELDER, Bärbel, PIAGET, Jean. A psicologia da criança. Tradução de Octávio Mendes cajado. São Paulo: Difel Editorial, 1985.

O desenvolvimento mental da criança surge como sucessão de três grandes construções, onde cada uma prolonga a anterior, reconstruindo-a para depois ultrapassá-la, cada vez mais amplamente. Isto ocorre, passando por todos os estágios, desde os esquemas sensórios-motores, que ultrapassa as estruturas orgânicas no curso da embriogenia, passando da construção das relações semióticas que serão reconstruídas e ultrapassadas até constituir as estruturas das operações concretas, e finalmente o pensamento formal, que reestrutura as operações concretas, os desdobramentos em novas estruturas se prolongará por toda as transformações da vida ulterior.
A integração dessas estruturas sucessivas, aonde a anterior conduz à construção da seguinte, possibilita organizar o desenvolvimento em estágios que obedecem alguns critérios:
1. A ordem da sucessão é constante, apesar das idades médias poderem variar conforme o grau de inteligência e da influencia do meio social;
2. Cada estágio se caracteriza por um conjunto de estruturas que explicam a função de reações particulares;
3. As estruturas de conjunto são interativas e não se substituem uma às outras.
O grande problema desse processo de desenvolvimento e a direção integrativa que se pode reconhecer nele é compreender o mecanismo; pois as explicações são provisórias e as teorias explicativas têm o desafio de integrar as interpretações da embriogenia, do crescimento orgânico e do desenvolvimento mental.
Nesse momento, discutiremos os quatro fatores estabelecidos até agora para a evolução mental:
1. Um fator é o crescimento orgânico e, especialmente, a maturação do complexo formado pelo sistema nervoso e pelos sistemas endócrinos. Ainda conhecemos quase nada das condições de maturação que possibilitam a constituição das grandes estruturas operatórias. Vemos que a maturação consiste em abrir possibilidades novas e constitui condição necessária do aparecimento de certas condutas, mas, para isso, que a maturação seja acrescentada de um exercício funcional e de experiência. E quanto mais as aquisições se afastam das origens do sensório-motor, mais variável é a sua cronologia, ou seja, nas datas de aparecimento, de mostra a importância das influências do meio físico e social.
2. Um segundo fator é o papel do exercício e da experiência adquirida na ação efetuada sobre os objetos, fator necessário na formação das estruturas lógico-matemáticas. Um fator complexo porque existem dois tipos de experiência: a) a física (ação sobre os objetos para abstrair as propriedades); b) a lógico-matemática (agir sobre os objetos para coordenar as ações). A experiência física constitui uma estruturação ativa, é sempre assimilação a quadros lógico-matemáticos. E as estruturas lógico-matemáticas são devidas à coordenação das ações do sujeito e não às pressões do objeto físico.
3. O terceiro fator é o das interações e transmissões sociais. A socialização é uma estruturação em que o indivíduo contribui, tanto quanto recebe; mas mesmo em situações em que o sujeito é mais receptivo (transmissão escolar), a ação social é ineficaz sem uma assimilação ativa da criança, o que pressupõe instrumentos operatórios adequados.
4. Os três fatores são insuficientes em si só e não fazem uma evolução dirigida. E num plano a priori, não poderia realizar-se biologicamente senão pelos mecanismos do inatismo e da maturação, que já conhecemos a nossa insuficiência em explicá-los. No caso do desenvolvimento da criança há uma construção progressiva tal que cada inovação só se torna possível em função da precedente. A explicação do desenvolvimento deve tomar em consideração a dimensão ontogenética e a social, no sentido da transmissão sucessiva das gerações, mas o problema se coloca análogos nos dois casos, pois a questão central é o mecanismo interno de todo construtivismo. Tal mecanismo é observável na construção parcial e em cada passagem de um estágio ao seguinte, é um estagio de equilibração, de auto-regulação, isto é de sequência de compensações ativas do sujeito em resposta às perturbações exteriores e de regulação ativa e antecipadora, que constitui um sistema permanente de tais compensações.
Para considerarmos esses quatro fatores como uma possível explicação da evolução intelectual e cognitiva da criança é necessário considerar o desenvolvimento da afetividade e da motivação. Vimos que a afetividade constitui a energética das condutas, cujo aspecto cognitivo se refere apenas ás estruturas. Portanto, não existe conduta intelectual que não comporte fatores afetivos; assim, como não poderia haver estados afetivos sem a intervenção de percepções ou compreensão, que constituem a sua estrutura cognitiva. É precisamente esta unidade de conduta que torna os fatores de evolução comuns aos aspectos cognitivos e afetivos, e a sua irredutibilidade em nada exclui um paralelismo funcional.
Vimos que as regulações dependem diretamente do modo aqui considerado , e toda a evolução ulterior, é um progresso contínuo, que conduz as regulações à reversibilidade (sistema completo de compensações,onde cada transformação corresponde a possibilidade de uma inversa ou de um recíproca) e a uma extensão não interrompida desta última.
A equilibração por auto-regulaçao constitui um processo formador de estruturas que desenvolvemos na dialética viva e vivida dos sujeitos que se acham ás voltas, em cada geração, tentando soluções que possam ser melhores do que as das gerações precedentes.
Quem foi Jean Piaget?

Jean Piaget nasceu a 9 de Agosto de 1896 na cidade de Neuchâtel, na Suíça. Era filho de Arthur Piaget, professor de Literatura Medieval na Universidade de Neuchâtel, e de Rebecca Jackson.Estudou Ciências Naturais na Universidade de Neuchâtel. Frequentou a Universidade de Zurique onde contactou com a psicanálise. Trocou depois a Suíça pela França onde efectuou os seus primeiros estudos experimentais de psicologia do desenvolvimento.Em 1923 casou com Valentine Châtenay. Deste casamento teve três filhas: Jacqueline, Lucienne e Laurent, cujo desenvolvimento intelectual foi por si meticulosamente estudado.


Em termos psicológicos, a sua investigação tem por objectivo central o estudo dos dispositivos que o indivíduo utiliza para perceber o mundo. Como epistemólogo, procurou determinar cientificamente o processo de construção do conhecimento. Nos últimos anos da sua vida centrou os seus estudos no pensamento lógico-matemático.Piaget não propõe um método de ensino mas apresenta uma teoria do desenvolvimento cognitivo cujos resultados são utilizados por psicólogos e pedagogos.Faleceu a 16 de Setembro de 1980 em Genebra.

Um comentário:

Andréa Cristina Felix Dias disse...

Silvana, você fez um bom resumo das ideias de Piaget, sem erros conceituais, mas senti falta da sua leitura, relações com a prática, enfim, espero que faça isso no trabalho de conclusão do curso.
Um abraço
Andréa