domingo, 8 de março de 2009

BEIJO - GUSTAVE KLIMT
1907/8. óleo sobre tela.
Kunsthistorisches Museum, Viena
http://www.allposters.com/gallery.asp?aid=999354&apnum=314334&DestType=7&Referrer%20=http://www.ocaiw.com/catalog/?lang=pt&catalog=pitt&author=472

Soneto de Camões

Na última aula, compartilhar com o grupo a análise de Odisséia, a montagem do quebra-cabeça, foi um exercício extremamente prazeroso. Aos poucos, cada um expunha sua versão, colocava uma peça e o cenário foi se formando.
Agora, inicio uma viagem solo! Deparo-me com várias peças soltas pela mesa e já percebo as dúvidas: Começo pelo canto do quebra-cabeça? Monto primeiro a porção do cenário que parece mais definida? E o céu de nuvens que se formou sobre alguns versos como uma grande massa acinzentada? Por onde começo?
Passo a primeira muralha de resistência, leio uma vez, leio duas. Com o lápis na mão, começo a olhar para as peças e penetrar na imagem de Camões.
No primeiro verso, ele já enumera três ingredientes, “Erros meus, má fortuna, amor ardente”, como se fosse uma combinação mortal. Erros que o autor cometeu durante a vida, e no plural parecem intensificar a sensação de muitos erros e reforça o “sobejar”. A má fortuna, a má sorte, o destino ingrato, e com ela a infelicidade dos aspectos se somou. O que me remete a Maquiavel com a expressão Vitu e Fortuna e as definições adaptadas: "virtù é o conjunto das nossas qualidades pessoais e fortuna são os fatores fora de nosso controle, digamos, a nossa "sorte".
[1] O amor ardente, esse sim desejado por todos! Porém, o autor provoca em mim uma dúvida: “Que para mim bastava amor somente”. O verso suscitou duas leituras possíveis, a primeira mostra que, se considerarmos os três aspectos, para o autor bastaria o amor, ficava só com o amor; a segunda mostra, que só o amor já é suficiente para que as incertezas e riscos imperem.
“Tudo passei”, a marca que passou, ficou no passado e faz um forte contraponto com “mas tenho tão presente /a grande dor das causas que passaram”, dando a noção de continuidade, pois as marcas das feridas permanecem vivas com ele. A expressão “magoadas iras” reforça a presença das feridas, com sentimentos que costumam fazer marcas mais profundas, como magoa e raiva, esse último ampliado pelo termo “ira”, que logo me remete a cenas de desentendimento e brigas amorosas. E conclui o verso se expressando a sua desilusão de “já” não querer ser contente, de perceber a impossibilidade de amar sem dor e de ter aprendido muito cedo com as dores.
No próximo verso, o autor parece reconhecer o discurso infundado que baseava suas esperanças com o amor, como se facilitasse ou desse margem para que magoas acontecessem, “Dei causa a que a Fortuna castigasse”, e a Fortuna ser escrita em letra maiúscula personifica as pessoas que o magoaram.
Encerra o soneto com outro verso que constata os seus desenganos com o amor “De amor não vi senão breves enganos”. Utiliza-se de um vocativo para clamar por alguém “Oh! quem tanto pudesse”, que pudesse amainar “Este meu duro Gênio de vinganças!”, duro por se fechar e endurecer com as feridas e o autor se personifica nesse Gênio de vinganças.


A grande dor das cousas que passaram
Carlos Drummond de Andrade – Farewell

Drummond remete ao soneto de Camões, utilizando-se de uma frase que contextualiza a dor com as magoas do amor e da continuidade descrevendo o florescer de um novo amor que descongelasse essa dor, respondendo ao clamor de Camões.
A dor do passado se transforma em prazer quando resgata em fotos, que estão se desfazendo, a imagem de um amor antigo: “transmutou-se em finíssimo prazer / quando, entre fotos mil que se esgarçavam,”. E o autor novamente destaca a força do destino no verso “tive a fortuna e graça de te ver”, graça que pode ser interpretada como uma dádiva, uma benção ou até mesmo como simbologia de um amor.
“Os beijos e os amavios que se amavam”, remetem a um contexto de namoro, com jogos de sedução e encantos que distraiam o “querer” dos namorados. Lembrança que renasce para refrescar essas sensações “outra vez reflorindo, esvoaçaram em orvalhada a luz de amanhecer”.
Drummond evoca o soneto de Camões como uma referência ao passado e à dor pungente e o consola com um presente terno e prazeroso com o soneto que exalta o ressuscitado amor, que se alimenta da memória reconstruída pelas fotos convertendo o horror e doçura.

Apto 43
Marina Colasanti

O texto da Marina Colasanti fala de uma relação que se iniciou com o “resgate” de animais, uma pomba ferida na asa e um carneiro abandonado em um terreno baldio, onde se inicia uma “suave convivência”. A relação com os bichos era permeada pelos sons dos animais, por seus alimentos e pelo “ruminar de três paciências”, por momentos de remoer e refletir que eram permitidos. A relação parece beneficiar a pessoa, que fica “mais doce” com a pomba e “mais manso” com o carneiro.
“Amavam-se nos cômodos estreitos”, a frase tem a intenção de garantir essa harmonia na convivência, mas em seguida a autora começa a descrever os cuidados e controle para que os animais não fugissem. A dependência da pessoa e sua insegurança aparecem estampadas quando a autora afirma “A vida sem seus amigos parecia-lhe impossível”. O estado de cerceamento sobre os animais começa a mostrar os primeiros efeitos colaterais, deixando a pomba voar de forma atordoada e o carneiro nervoso.
E a relação se transforma de suave para a fúria do ataque da pomba sobre os olhos da pessoa até afundar em sangue e o bater de patas sobre o corpo caído, em sinal de reprovação, desejando dar fim à carne com seus dentes.
O texto nos convidar a refletir como um amor se inicia de forma companheira e afetuosa, mas que pode se transformar em algo que cerceia e aprisiona. Instigando a revolta e a necessidade de lutar. E novamente retoma a analogia com o soneto de Camões, onde a ira e a fúria dos desencontros do amor estimula o Gênio de vinganças.
Klimt veio a minha cabeça, por sua representação do beijo, o amor, como uma colcha de retalho em um campo de flores, um patchwork de experiências e vivências que cada um traz para a relação, podendo se fundir em uma imagem harmoniosa ou não.










Um comentário:

Maria José Nóbrega disse...

Silvana,
gostei de ver seu estilo ao comentar os poemas.
Beijos,
Mazé